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Simone Castro

O título desta resenha parece meio sem propósito assim, lido separado, mas ele tem um significado todo especial e subjetivo no filme “A Montanha dos Sete Abutres”. Dirigido em 1951 por Billy Wilder, que entre tantos filmes fez “Crepúsculo dos Deuses” e “Quanto mais Quente Melhor”, a película faz uma crítica profunda à essência do jornalismo e explora algumas perguntas importantes como: o que é a verdade? O que é notícia? Qual é o limite do repórter? O que as pessoas procuram com a notícia? Qual a função da imprensa?

Diga a verdade! A frase bordada pela doce senhora da editoria de “coisas para mulheres” está na entrada do escritório do Sr. Boot, dono do pequeno jornal de Albuquerque. Entre tantas coisas ele usa suspensório e cinto, exatamente! Os dois, ao mesmo tempo. Checa duas vezes as informações antes de publicar e sempre fala a verdade. Ou seja, é um homem prevenido.

Um dia aparece em seu jornal, Charles Tatum, um jornalista nova-iorquino. Homem astuto e de caráter duvidoso. Foi demitido de onze jornais, por várias razões, entre calúnias, envolvimento com a mulher do editor e problemas com bebida. Tatum, interpretado por Kirk Douglas, não freqüentou a academia, mas vendeu jornais na esquina, logo tinha toda uma teoria do que era notícia e quais notícias interessavam o público.

O pior de tudo é ver que a crítica ao jornalismo, presente em A Montanha dos Sete Abutres é real e que pouca coisa mudou no que se refere à ética. Existem milhares de Charles Tatuns, sempre pleiteando um espaço, querendo ganhar mais e mais notoriedade, sem se importar com as pessoas ou com as histórias que contam. E existem milhares de pessoas como Leo Minosa, o personagem preso em uma caverna, que em sua ignorância e ingenuidade acredita que será salvo pelo amigo mentiroso, o jornalista Tatum.

A ética é algo tão banalizado que ser ético é ser trouxa e isso era tão real em 51 como é em 2007. Ser ingênuo é ser burro. Não importa a classe social que se faça parte, o mundo do passe para trás está em tudo e especialmente na imprensa. Os meios de comunicação são fundamentais na manipulação, na bajulação desordenada e a ética figura como um detalhe, muitas vezes esquecida em uma gaveta, como uma pauta para mais tarde.

Vale a pena passar por cima de tudo e de todos para ter uma boa notícia, um ótimo salário, ser agraciado pelos leitores, espectadores, ouvintes? Ser jornalista é sinônimo de artista por acaso? Quais informações úteis realmente passamos à frente? Me pergunto isto todo dia. O que quero com o jornalismo? Que tipo de coisa construo a partir de minhas impressões?

Acredito que Tatum pagou seu “pecado”, numa frase bem católica. Se não fosse por sua vaidade, a probabilidade de que Leo Minosa saísse muito tempo antes da caverna seria múltipla. Se não fosse por sua arrogância, ele mesmo não teria morrido.

A placa: “Fale a verdade” é tão ousada quanto ditadora. Um pouco mais de sinceridade não faz mal nenhum. Por mais piegas que seja, voltamos sempre aos ensinamentos básicos: onde começa o direito de um, acaba o do outro, talvez isso seja a essência da ética. Talvez as redações precisem mais de cintos e suspensórios, assim como placas de Diga a Verdade! Mas de que adiantam placas se os olhos não querem ver?

*Resenha sobre o filme A Montanha dos Sete Abutres. Realizada para a matéria Redação Jornalística 6, ministrada pelo jornalista Sandro Galarça (2007).

A mão gelada e um friozinho na barriga. O vento de outono, que mais parece inverno, deixaram o nervosismo de Rosenilda Ribeiro, 18 anos, e Joice Foster, 17, ainda mais evidente. As duas garotas, que são deficientes visuais, aguardavam o começo da aula inaugural de bodybording, que aconteceu ontem a partir das 11h da manhã, na Praia da Atalaia, em Itajaí.

As aulas de surf para cegos são oferecidas gratuitamente desde o ano passado, mas o bodyboarding é novidade. Ele foi adotado pelo coordenador do projeto, Jailson Blasius Fernandes, da Associação Escola de Surf Amigos da Atalaia. Com o objetivo de facilitar o contato com a prancha, já que no surf é necessário que o aluno tenha mais habilidade para ficar em pé na prancha e no bodyboarding a pessoa permanece deitada. É normal também que no início os alunos tenham receio de cair e medo da água.

Rose e Joice são paratletas. As duas jovens treinam corrida e arremesso de dardos todas as manhãs e pretendem a partir de agora também praticar o bodyboarding pra manter mais contato com o mar. Elas estavam eufóricas e com medo da água gelada, mas não desistiram. Depois do alongamento e aquecimento colocaram a prancha embaixo do braço e enfrentaram as ondas. Orientadas pelos instrutores Carlos Wanzuita, Thiago de Souza e Thiago Dai Pra, que somam anos de experiência no esporte. Os professores comentaram que nunca trabalharam com deficientes, mas acreditam que será um ótimo aprendizado para todos.

Jailson confirma o palpite dos professores. Ele fabrica pranchas e surfa há 32 anos e diz que é ótimo dar aulas para os cegos, pois eles têm grande facilidade em aprender e muita força de vontade. Outros deficientes que já praticam o surf, como é o caso de Lenilson Luiz Lobo, 27, Rodrigo Lima, 23, e Marcelo Werner, 30, também caíram na água, mas com as pranchas de surf.

Ao todo 14 instrutores trabalham voluntariamente para ensinar nas duas modalidades, mas as aulas de surf não são só para os deficientes. Aproximadamente 25 vagas estão abertas para toda comunidade, é preciso entregar apenas um quilo de alimento não perecível na matrícula. As aulas acontecem aos domingos a cada quinze dias na Praia da Atalaia, a partir das 9h da manhã para quem não tem deficiência e às 10h para os deficientes visuais. Para quem quiser saber mais informações é só entrar em contato com Jailson, pelos telefones (47) 9903-9103 ou 3344-2949.

*Matéria publicada no jornal Diário do Litoral, mais conhecido por Diarinho.

Diferente de tantos outros dias, Tereza tem procurado mudar sua rotina agitada de tarefas domésticas, que incluem ações como levar o filho na escola, preparar almoço, limpar a casa. Tereza resolveu deixar algumas horas de seu tempo corrido para dedicar a si mesma, ao seu bem-estar. Tereza Teixeira, 53 anos, é moradora do bairro Dom Bosco e pelo segundo dia seguido utiliza os equipamentos da Academia da Terceira Idade, na Praça da Beira Rio. Ela conta que vem a pé de casa e faz três seções com seqüências de dez movimentos em cada aparelho. Depois, ela faz novamente todo trajeto a pé.

“Ontem foi a primeira vez que eu vim. O bom é que é de graça né? Porque uma academia às vezes custa caro e aqui a gente tem esse espaço de graça. Nós temos que aproveitar essas oportunidades.”

Ao todo são 10 equipamentos de inox, similares aos de uma academia de ginástica normal, só que ao ar livre. Estas academias seguem o modelo do que já acontece nas praças chinesas há um bom tempo e que a partir de 2005 surgiram pela primeira vez no Brasil, na cidade de Maringá, no Paraná. Estes aparelhos somam um investimento de 70 mil reais e foram instalados no início do mês em um dos lugares mais bonitos de Itajaí.

A paisagem com os barcos do Saco da Fazenda ao fundo dão ainda mais ânimo para as pessoas que se exercitam. É o caso de Herondina Ferreira de Araújo da Silva, uma senhora alegre e sorridente que faz parte do Núcleo da Marejada do programa Itajaí Ativo. Ela diz que é a primeira vez que usa os equipamentos, mas que adorou a idéia. “É ótimo, tô gostando muito. Mexe em tudo que a gente precisa”.

Tanto a Academia da Terceira Idade, como o Itajaí Ativo são projetos da Fundação Municipal de Esportes de Itajaí (FME) com parceria da Secretaria de Saúde. Eles são voltados para pessoas com mais de 50 anos, mas crianças e jovens também podem participar. Segundo o Superintendente da FME, Davi Coelho, mais duas academias serão instaladas na cidade. Uma na Praça Marechal Cândido Rondon, bairro Costa Cavalcante, e outra no Parque Alessandro Weiss, bairro São João.

Davi afirma que o objetivo é fazer uma promoção de saúde. “São ações conjuntas para dar mais qualidade de vida e promover a saúde dos habitantes da cidade. A gente quer evitar que as pessoas tomem remédios, sintam dor. E a academia veio complementar essas ações. A intenção é levar uma academia destas para todos os bairros da cidade.”

Maria Aparecida Madeira, 56 anos é uma destas pessoas que tem se sentido melhor. Ela tem osteoporose, uma doença que enfraquece os ossos, e há quase um ano freqüenta o Itajaí Ativo. Maria também tem feito exercícios na Academia da Terceira Idade e gostou da novidade. Outro que gostou da idéia foi o Educador Físico, Gustado De Angelis.

Todas as segundas, quartas e sextas, a partir das 8h da manhã, na Marejada ele faz todo mundo que quiser participar se mexer. Primeiro é feito um alongamento, depois uma caminhada até a Praça na Beira Rio. Mais alguns minutos nos aparelhos da academia ao ar livre, outra caminhada e novamente alongamento. Gustavo diz que os exercícios agora estão mais completos, pois a caminhada é boa para o sistema cárdio-respiratório e que a academia fortalece os músculos e ossos.

Já a pedagoga aposentada, Lindinalva de Amorim, 58 anos, só espera que vândalos e destruidores de plantão não estraguem a academia. “Se o pessoal conservar, dar valor pra isso, vai ser ótimo porque é um grande feito pra Itajaí. É acessível, qualquer um chega e faz exercícios que muitas vezes não tem nem em academias particulares”.

*Matéria publicada no jornal Diário do Litoral em 25/04/2008


Gilberto Marcos Onofre não tinha nem seis meses de idade quando os pais notaram que o garoto tinha algo de diferente das outras crianças. Uma pequena batida era o suficiente para marcar o corpo do frágil Gilberto com hematomas que ficavam em sua pele por semanas. A doença foi diagnosticada pelos médicos como hemofilia, um distúrbio genético que não controla sangramentos e transforma pequenos impactos em coágulos. Há 45 anos, a enfermidade era desconhecida e os pais do menino tinham que levá-lo de Itajaí para Curitiba em busca de tratamento.

Gilberto teve uma infância difícil, os médicos disseram para seus pais que ele provavelmente não teria muitos anos de vida e se chegasse na fase adulta, não poderia ter filhos. Isso fez com que o menino brincasse o máximo que podia, aproveitasse cada instante como se fosse o último. Ele jogava bola, corria, andava de bicicleta escondido da mãe, que inutilmente tentava evitar os excessos do filho. Mas, foi só na adolescência que Gilberto conseguiu  “sossegar o faixo”. Ele descobriu o pingue-pongue e depois, o tênis de mesa amador.

O garoto cresceu e para manter a mulher e seus quatro filhos, tornou-se relojoeiro. Por um longo período a raquete e as bolinhas ficaram de lado na vida de Gilberto. Por causa da doença, ele ficou com algumas sequelas que consequentemente atrapalharam sua locomoção, mas não o seu esforço e garra na hora de disputar uma partida.

Há aproximadamente dois anos, Gilberto voltou a treinar com o professor Edson Luis da Silva, o “Cebola” e hoje o tênis de mesa contribui para a sua recuperação. Os treinos ajudam no fortalecimento dos músculos comprometidos pela doença e estimulam Gilberto, que joga de igual para igual com os outros atletas sem deficiência física alguma. No Campeonato Brasileiro de Tênis de Mesa do ano de 2007, ele foi oitavo colocado na categoria paradesporto C8, voltado para atletas com menor grau de deficiência.

O grande objetivo agora do esportista é ficar entre os cinco primeiros colocados no ranking brasileiro. Gilberto garante que para ser um atleta é preciso dar tudo de si. “Para ser atleta de rendimento não tem como pensar só em fazer esporte por prazer, tem que treinar, treinar, dar o sangue”.

Hoje, Gilberto além de atleta é professor das escolinhas de tênis de mesa para as crianças de 6 a 16 anos do Esporte nos Bairros. Ele garante que a modalidade estimula a concentração, a coordenação motora das crianças, além de instigar ações de responsabilidade e comprometimento. Para ele, a atividade como professor também complementa seu treinamento, pois  fortalece o psicológico e sua musculatura. Uma forma de instigá-lo a buscar sempre mais.

Um pouco sobre a história do esporte

A bolinha passa de um lado para outro, tão rápida, que os olhos mal conseguem acompanhar. São pequenos movimentos estratégicos que transformam a rota da bola ou intensificam um efeito. Parece simples, mas exige técnica e raciocínio rápido.

O tênis de mesa foi inventado no século 19, na Inglaterra, em uma tentativa de se assemelhar ao tênis de campo. Como o barulho da bolinha ao se chocar com as velhas raquetes de madeira emitiam o som de ping-pong, o esporte ficou conhecido popularmente desta forma. Depois de alguns anos, uma empresa registrou o nome pingue-pongue como um brinquedo infantil e o esporte profissional passou a ser denominado tênis de mesa.

Em Itajaí, a Associação Itajaiense de Tênis de Mesa (AITM) desenvolve um trabalho de base que alia o esporte de rendimento ao esporte comunitário, onde muitos talentos mirins foram descobertos no ensino da modalidade no programa Esporte nos Bairros. Atualmente são aproximadamente 80 crianças que estão aprendem o esporte nos pólos Amjaprocor, em Cordeiros, Praça da Amizade, no bairro Imaruí e no Ginásio de Esportes Gabriel Collares, Vila Operária.

Neste mesmo ginásio, cerca de 20 esportistas do grupo de rendimento treinam diariamente. Eles têm idades que variam dos sete até 45 anos, como é o caso de Gilberto Marcos Onofre, um dos nomes de maior destaque do grupo. Muitos destes atletas foram descobertos através das escolinhas e sonham em chegar no lugar mais alto do pódio.

*Matéria produzida para a matéria de Jornalismo Científico, ministrado pela professora Laura Seligman.

Simone Castro

Seja em uma grande cidade, em uma cidade pequena, aqui no Brasil, ou em qualquer outro lugar do mundo. Sempre há alguém ali, visível no invisível. O estereótipo pode ou não ser verdadeiro, roupas rasgadas, um pouco sujas, o mau cheiro, pessoas sentadas no chão com uma caixinha, vendendo alguma coisa nos sinais, fazendo malabarismos ou simplesmente pedindo esmolas.

Há quem repudie, há quem procure entender e contribuir. Há quem procure instituições ou abrigos para ajudar, há quem simplesmente finja que não vê. As reações são as mais diversas. E inevitavelmente, pelo menos uma vez na vida você se pergunta, mas eu devo ou não dar esmolas? Devo dar um alimento ao invés de dinheiro? E se der dinheiro o que eles vão fazer com ele, usar drogas?

Itajaí, cidade portuária com aproximadamente 170 mil pessoas de todos os cantos do país. O maior porto de Santa Catarina vira um atrativo econômico e faz com que migrantes busquem melhores condições de vida. Além disso, a cidade está ao lado de Balneário Camboriu, que recebe milhares de turistas todos os verões. Parece meio desconexo este amontoado de informações, mas logo você vai entender.  A matéria fala de esmolas, mas para falar de esmolas temos que apurar a causa destas pessoas estarem nas ruas.

Perda de emprego, separação conjugal, uso de álcool e drogas, além de abandono familiar, são apontados pelo coordenador do Programa de Orientação ao Migrante, Marcos Paulo da Silva como os principais motivos que levam uma pessoa a preferir morar nas ruas. Ele afirma que o período com maior número de mendigos pela cidade é de dezembro até o fim do Carnaval. Ou seja, em busca de melhores oportunidades, mas com baixa escolaridade, além de muitos já serem dependentes químicos, estas pessoas acabam nas ruas, pedindo esmolas.

Há quem more nas ruas mas que não se considera um morador de rua. Moacir Luiz da Costa, um senhor magro, de aproximadamente 1,68m de altura, escorpiano de 62 anos fica confuso quando é perguntado sobre sua idade. Diz que nasceu em 1944,  faz algumas contas rápidas e diz que possui 64 anos. Assim como a idade não confere, muitas informações de Seu Moacir não batem. Ele diz que saiu de casa há 26 anos, mas não é morador de rua, é trecheiro. Saiu de Brusque, sua cidade natal com o objetivo ir a pé até a Basílica de Aparecida, em São Paulo e de lá foi até a Bahia e assim segue. Ele diz que fica na casa de seus irmãos, espalhados pelo Brasil. E quando pergunto quantos irmãos ele tem, ele me responde que com ele são quatro, duas irmãs aqui em Itajaí.

A impressão que tive, foi que seu Moacir não queria que eu tivesse a sensação que ele não era confiável, que era um qualquer. Ele queria mostrar toda sua dignidade. Falou espanhol, disse que escrevia poesia e entendia um pouco de jornalismo, que já deu algumas entrevistas. Aparentemente, aquele senhor, não tinha problemas mentais, mas as idéias eram confusas.

Seu Moacir é solteiro, disse que era peão de fazenda e que limpa os terrenos das pessoas até hoje. Quanto a pedir esmolas, diz que não pede, geralmente senta em algum lugar e as pessoas oferecem, mas há cidades maiores que ele pede um prato de comida, vai a alguma padaria. E são algumas bolachas, provavelmente a única alimentação que ele tinha, que ele me oferece.  Eu não aceitei, talvez um pouco por receio da higiene, mas principalmente por saber que aquelas bolachas lhe fariam falta no fim do dia. Acho que minha atitude foi ríspida, deveria ter aceitado, como sinal de gratidão. E gratidão foi algo que senti naquele senhor, sentado ao sol, numa calçada ao lado da floricultura, de chinelinho em um dia frio. As pessoas passavam e me observam conversando com aquele senhor. O que eu estava fazendo ali. A sociedade finge não ver estas pessoas. Elas incomodam, parecem mostrar o feio e ninguém gosta disto.

Para o professor de Ciências Sociais, Sérgio Saturnino Januário, o ato de dar esmolas tem a função de eximir a culpa. Ele acredita que o hábito herdado da Idade Média, onde alimentos eram doados para a Igreja acabou gerando este  sentimento nos católicos que perdura até hoje. Ainda é comum vermos pessoas pedindo esmolas nos arredores das igrejas. Para o sociólogo, a esmola não representa a solidariedade, “o sentir a dor do outro”, mas ela representa uma relação de poder, onde eu estou dando algo para alguém porque estou me livrando da culpa, faço aquilo não porque vejo alguém passando fome, mas para não me sentir culpado de não ter feito nada.

Já o Padre José Edemar Rauber, responsável pela Paróquia Dom Bosco, garante que a igreja sempre foi contra a dadição das coisas, o dar por dar. Especialmente no período da quaresma, os católicos seguem três passos: oração, esmola e jejum, mas esta esmola não deve ser individual. Ele acredita que a melhor forma de ajudar o próximo é doar para instituições organizadas, que poderão garantir e averiguar o melhor destino, assim como acompanhar a doação. Para padre José o dadismo estimula a miséria e o assistencialismo do governo só mantém as pessoas em situações de dependência. Em sua opinião, deveriam existir mais políticas públicas que garantam qualidade de vida e o estímulo ao ensinar a pescar, não apenas dar o peixe. Ele também é contra pessoas que realizam doações e espalham aos quatro ventos para mostrar o quanto são boas. “Que a mão direita dê, mas a esquerda não fique sabendo”, finaliza Padre José.

Integradas à Igreja Dom Bosco, há duas instituições que realizam o trabalho de “ensinar a pescar”. Uma é o Parque Dom Bosco, mantido através de doações, vinculado à rede salesiana e que atende mais de 900 alunos. Outro projeto é o Centro Comunitário Dom Bosco, este sim, diretamente vinculado a Paróquia e que atua de forma mais abrangente nas vidas das famílias atendidas. São distribuídos para aproximadamente 70 famílias cadastradas, cestas básicas, alimentos, roupas e também são oferecidos cursos profissionalizantes gratuitos para quem se interessar. O diferencial é a proposta de cursos itinerantes que vão até as comunidades. Auxiliar de confeitaria, manicura, pedicura, artes aplicadas, teatro, alfabetização digital, são algumas das modalidades oferecidas. O presídio também é atendido por estes cursos, que mantém em seu quadro professores voluntários e efetivos. Grandes empresas como a Petrobrás atuam como patrocinadores.

Segundo a doutrina espírita ajudar também é extremamente importante para conseguirmos elevação da alma. Para a presidente do Centro Espírita Anjo da Guarda, Maria Salete da Silva, todos somos irmãos e devemos nos preocupar com o próximo como a nós mesmos. Ela critica o pensamento que família são apenas as pessoas com quem mantemos consangüinidade.

Maria Salete afirma que a caridade é a promoção da cultura humana e do ser humano, já a esmola fere a dignidade, pois trata o outro como um ser medíocre, não resgata esperança. Ela cita o Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, fundador da doutrina espírita, que no capítulo Final das Leis Morais aproxima o espiritismo da sociologia e prega que o social e o espiritual não são coisas separadas, mas que se complementam.

A presidente do segundo centro espírita mais antigo de Santa Catarina diz que há corrupção por todos os lados, há uma cultura exagerada do materialismo, então quem está na marginalidade muitas vezes não está por opção, mas por circunstância. “São pessoas que por um motivo ao outro estão na rua, mas nem por isso são melhores ou piores que nós”.

Como padre José, ela afirma que a melhor forma de ajudar é contribuir com instituições sérias. O Anjo da Guarda tem uma parceria com o Lar Fabiano de Cristo, onde há distribuição de roupas, alimentos, além de capacitação profissional e cursos de música.

Segundo Marcos Paulo da Silva, coordenador do Programa de Orientação ao Migrante (POM) e da Casa de Apoio Social, as abordagens realizadas com os moradores de rua em Itajaí são as seguintes: a equipe do POM aborda a pessoa, com diálogo, não há imposição ou violência. Os funcionários verificam o local de origem desta pessoa e se ela é de outro estado. Então ela é encaminhada para a Casa de Apoio Social, onde pode se alimentar, tomar banho, enquanto é feito o contato com a família ou com a assistência social da cidade de origem. Depois esta pessoa ganha uma passagem de ônibus, que é entregue para uma funcionária do posto do POM na rodoviária e ela certifica o embarque do migrante.

Quando o pedinte é da região, ele é encaminhado para a Casa de Apoio Social e uma assistente social determina o tempo que ele ficará no local. Alguns critérios são avaliados, como se ele é ou não dependente químico, formas de tratamento em clínicas, internações. Após este período ele recebe encaminhamento para cursos profissionalizantes. Atualmente oito pessoas estão abrigadas na Casa. O abrigo com capacidade para atender 25 pessoas está localizado no bairro Rio do Meio. Como é uma região agrícola, os moradores de rua plantam, lavam suas roupas, criam coelhos, galinhas, porcos. Para Silva, o importante é que haja ambiente familiar e que sejam respeitadas algumas regras e limites.

A prefeitura de Itajaí está lançando uma campanha contra a doação de dinheiro para pedintes, artistas que se apresentam nos semáforos e flanelinhas. A campanha “Quem dá esmola não dá futuro” pretende conscientizar a sociedade que doar esmola não contribui de uma forma eficaz para a desmarginalização destas pessoas. Silva diz que ao ver uma pessoa pedindo, o ideal é entrar em contato com o POM, para que eles averiguem a situação.

Outra preocupação é com as crianças de rua. Muitas são exploradas pelos pais ou parentes que as obrigam a pedir esmolas. Outras, vítimas de violência doméstica ou sexual, preferem as ruas. Leni Batista Tessele, conselheira tutelar, garante que ao sermos abordados por uma criança não devemos dar a esmola e sim chamar o conselho, que trabalha todos os dias da semana e tem plantão 24h. Estas crianças passam por uma triagem onde são localizadas suas famílias, são levantados os motivos delas estarem nas ruas, é verificado se as famílias recebem apoio social, como Bolsa Família ou estão inseridas em projetos como o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI). A tentativa principal é inserir esta criança de volta à sua família, seja aos cuidados dos pais, tios ou avós. Caso não seja possível, ela é encaminhada para um dos quatro abrigos. Três são destinados a crianças até 12 anos e um para adolescentes até 18 anos. Atualmente as 62 vagas estão lotadas.

Para a advogada, Grace Azambuja, ver crianças nas ruas sempre lhe cortou o coração. Ela então, no intervalo do trabalho, começou a pagar lanches para estas crianças enquanto conversava, dava respeito e afeto, mas não as levava para casa, chamava o Conselho Tutelar. Hoje já não faz mais este trabalho, mas desenvolve uma atividade no Parque Dom Bosco com menores em conflito com a Lei. Grace reconhece a dificuldade em plantar esperança nestes adolescentes, mas acredita que pode ajudar.

Já a conselheira tutelar Leni diz que marginalidade está muito próxima destas crianças e que as políticas públicas não são eficientes no tratamento familiar, pois não há um acompanhamento efetivo destas famílias. O conselho sendo um órgão encaminhador, só orienta, não tem como tratar todos os casos de perto.E assim, vamos vivendo, fingindo que tudo está bem e que nada temos a ver com isso.

Box serviço

Centro Comunitário Dom Bosco – (47) 3344-1630

Programa de Orientação ao Migrante – (47) 3249-5874

Programa de Orientação ao Migrante – Sala Rodoviária – (47) 3248-4598

Programa de Orientação ao Migrante – Plantão das 7h as 00h – (47) 9919-8961

Programa de Orientação ao Migrante – Casa de Apoio Social – (47) 3346-5188

Assistência Social – Bolsa Família – (47) 3249-5801 / 3249-5879

Conselho Tutelar – (47) 3248-1711 / 3349-8456 – Plantão 24h – 9963-1684

Serviço de Denúncia Exploração Sexual Crianças e Adolescentes – 0800-99-0500

*Matéria realizada em junho de 2007 para a disciplina de Jornalismo de Revista, ministrada pelo professor Mario Luiz Fernandes.

Simone Castro

Lembro-me da minha infância na Vila Ideal, em Canoas, Rio Grande do Sul, onde os meninos corriam pelos campinhos de várzea e onde uma gurizada sem fim se reunia pra jogar bola nas tardes após a aula. Devia ser entre 1988 ou 1990, quando eu não tinha mais do que sete ou oito anos e era a única menina do grupo a brincar com os meninos. Geralmente eu ficava só olhando, outras vezes eu jogava também.

Lembro do meu irmão Fabiano, aquele garoto meio gordinho que ia pro gol fazer suas defesas maravilhosas e imitava as jogadas e os lances de Cláudio Taffarel, seu maior ídolo até então. Engraçado era que todos lá em casa sempre foram gremistas, e meu irmão talvez fosse o mais fervoroso, mas estranhamente seu ídolo jogava no time adversário. Enfim, coisas de garoto.

Lembro que não importava o campinho, mas uma coisa era sempre igual:  ao redor da área do goleiro tinha uma grande rodela de mato desmatado e o chão vermelho embarrava os uniformes que não eram nada mais do que roupas velhas ou camisas brancas com os números pintados atrás com tinta de tecido. O Fabiano, ou apenas Mano, como insisto em chamá-lo até hoje, usava uma fita crepe para pintar o número que deveria ficar milimetricamente compatível e a tinta não devia borrar. Depois ele tirava a fita e o número ficava certinho.

Uma vez eu joguei no gol e um garoto que era nosso vizinho chutou uma bola forte na minha barriga. Meu irmão, sem hesitar,  não pensou duas vezes e foi tirar satisfação com o menino. Foi o maior quebra-pau. O Fabiano  deu uns bons sopapos no garoto magrela que se achava o melhor em tudo. Era o típico dono da bola,  ninguém o suportava, mas os meninos todos aceitavam que ele jogasse porque tinha o poder de ter a redondinha.

E tinha o Jonathan, um amigo de meu irmão que eu achava bonito. Eu, ainda tão pequena pensava que quando crescesse poderia, quem sabe, vir a me aproximar dele. Tinha ainda os passeios de bicicleta. Como meu irmão é cinco anos mais velho, suas zicas ou magrelas, como se denomina bicicleta aqui em Santa Catarina, passavam dele pra mim. Eu tinha uma BMX que tinha sido dele e que por seu zelo e cuidado, foi motivo de muitas brigas entre nós. Ela era bordô metálica, linda e eu caí alguns tombos com ela. Arranhei braço, perna, aquela coisa de criança. Tinha também a “Nastácia”, bicicleta da minha mãe com freio de pé. Meu irmão me colocava na garupa e pedalava o mais que podia. Meus cabelinhos lisinhos voavam com o vento que batia em meu rosto enquanto ele ria e se exibia pra mostrar o quanto conseguia ser veloz. Até hoje é apaixonado por velocidade.

As atividades esportivas tinham um sabor de quero mais, especialmente no verão, quando anoitecia quase sempre por volta das 21h. O Sol se põe mais tarde no sul do País. É estranho, porque aqueles anos, aproximadamente sete ou oito anos de minha vida se imortalizaram de tal forma que parecem muito mais. A minha infância é como se tivesse sido há muito tempo, mas também estivesse aqui perto. Eu e meu irmão crescemos, mas ainda guardamos dentro de nós aquelas coisas. As brincadeiras com as panelas de nossa mãe, os carrinhos dele que eu quebrei, as corridas, o pega-pega, esconde-esconde, a diversão que era tomar banho de piscina de plástico, as figurinhas do Campeonato Brasileiro e as jogadas de “bafo” pra ver quem conseguia ganhar mais exemplares pra completar o álbum antes.

Lembro-me quando meu irmão ganhou o troféu de goleiro menos vazado e seu time de futebol da escola foi campeão. Até hoje ele guarda o troféu de latão, que pra ele é como se fosse de ouro.

Meu irmão queria ser goleiro profissional, mas os caminhos da vida o levaram pra outro sentido. Hoje ele é gerente de uma concessionária de caminhões, outra de suas paixões. E mesmo com seus quase 1,90 metros de altura e seus 31 anos, quando olho pra ele ainda vejo aquele pequeno garoto que me chamava de “seca” nas discussões, mas que me carinhosamente dizia Mone quando estava de bem comigo.

Sempre achei interessante ver o mundo com os olhos de um menino e meu irmão me deu este olhar. Eu, a menina que brincava de bonecas, de Barbie com as outras meninas, mas admirava e me interessava por aquele mundo deles, tão particular, tão interessante.  Parece que foi ontem que nós dobramos a esquina e que chegamos até aqui.

*Crônica esportiva realizada para a matéria de Jornalismo Especializado, ministrada pela jornalista Valquíria Michela John (2008).