Mal acreditei quando entrei no Teatro do Sesc Santana e lá estava ele, no palco, a postos. Sem cortinas fechadas, aguardava o público se acomodar e lia. Com uma nudez mais nua que a própria falta de roupas, lá estava Paulo José. Diretor, ator e pai de Ana Kutner. O desejo de montar “Um Navio no Espaço ou Ana Cristina Cesar” foi mais do que uma homenagem à poeta que surgiu e partiu tão rápido. De certa forma fora sua algoz. De uma antipatia surgiu o encantamento e a admiração.
Ana Kutner interpreta Ana Cristina Cesar, poeta carioca revelada em 1975, na antologia “26 Poetas Hoje”, organizado por Heloísa Buarque de Holanda. A obra reunia autores conhecidos como a “geração mimeógrafo”, subversivos aos padrões literários da época. Recusavam a tradição clássica da literatura e rejeitavam as correntes de vanguarda, como o concretismo. Ana Cristina publicou apenas um livro entre milhares de cartas, textos e material produzido desde a infância. “A Teus Pés”, de 1982, foi o livro que fez Paulo José mudar seu olhar sobre a jovem petulante.
Os dois trabalhavam na TV Globo. Ele dirigia “Caso Verdade”, um programa voltado para donas de casa, empregadas domésticas, pessoas que assistem a TV na cozinha. Eram histórias tristes com finais felizes. Ana Cristina Cesar, já com mestrado em literatura na Inglaterra, fazia a análise dos textos produzidos na emissora. As críticas, os relatórios cheios de apontamentos, fizeram com que Paulo odiasse-a. O tempo passou, a vida de cada um tomou um rumo. Até que Paulo soube de “A Teus Pés” e a cada leitura descobriu um novo poema a emergir do mesmo. Ana Cristina revelava-se e se escondia em suas próprias palavras. Sua nudez em mostrar-se, a angústia em sentir, em viver, em saber quem era, foi tão visceral quanto seu amor pela literatura. Entre a loucura e a lucidez, Ana suicidou-se em 1983.
“Um Navio no Espaço ou Ana Cristina Cesar” mais do que uma homenagem é uma reflexão sobre a vida, o peso de viver, de amar, de sentir. As cortinas não fecham um instante. Tudo acontece no palco. Paulo interroga Ana, tenta tirar quem ela é por trás dos textos. Ana Kutner confunde-se em Ana Cristina Cesar. A Ana atriz se joga na alma da Ana escritora e dela extrai poesia. Há momentos em que é quase imperceptível que ela não seja ela, seja outra pessoa. E Paulo, por momentos, contempla a interpretação da filha, em outros a própria Ana Cristina.
“Não sou idêntica a mim mesma
Sou e não sou ao mesmo tempo, no mesmo lugar, sob o mesmo ponto de vista
Não tenho razão de ser nem finalidade própria:
Sou a própria lógica circundante”
Ana C.
A peça discute quem somos, como nos veem, como nós nos vemos, nossos sonhos, anseios, a eterna busca pela felicidade. Era esse o maior desejo de Ana C., ser feliz. Romances, histórias, viagens, as vivências interferindo na forma de entender o mundo, para então, entender a si e jogar isso em papéis e letras e palavras e textos.
Com uma cenografia bela, funcional e simbolista, a plataforma suspensa de um navio funciona como a passagem de Ana para dentro de si. Trilha sonora, iluminação, efeitos audiovisuais, tudo é apresentado de forma contextual, relevante e com o objetivo de emocionar. A peça não é apenas um espetáculo, é a própria razão de um artista, a expressão de sua arte. Paulo José precisava falar sobre Ana C., e eu, particularmente, precisava de Paulo José e Ana Kutner.
SONETO
Pergunto aqui se sou louca
Quem quer saberá dizer
Pergunto mais, se sou sã
E ainda mais, se sou eu
Que uso o viés pra amar
E finjo fingir que finjo
Adorar o fingimento
Fingindo que sou fingida
Pergunto aqui meus senhores
quem é a loura donzela
que se chama Ana Cristina
E que se diz ser alguém
É um fenômeno mor
Ou é um lapso sutil?
Ana C.
