Tudo não é Verdade!


Documetário O Abraço Corporativo discute papel da imprensa na veiculação de informações

Depois de quase cinco anos de trabalho, finalmente é lançado em circuito comercial o documentário “O Abraço Corporativo”. Idealizado, produzido, roteirizado e dirigido pelo jornalista Ricardo Kauffman, o filme propõe uma reflexão sobre como o jornalismo é construído hoje. Em dias de internet, em que as pautas de jornais, TV´s, rádios, sites e qualquer outro meio de comunicação tem a maior parte de seu conteúdo pautada pelas assessorias de imprensa, o vídeo de 75 minutos expõe de forma corajosa todo esse processo.

Quando eu assisti ao filme pela primeira vez, não tinha praticamente nenhuma informação. A história de um consultor de RH em busca de exposição na mídia me pareceu meio monótona, meio comum, apesar da figura carismática de Ary Itnem Whitacker. O tal consultor buscava divulgar a Confraria Britânica do Abraço Corporativo (Cbac), uma suposta entidade com o objetivo de propor que as empresas adotassem o abraço como forma de aproximação entre os funcionários, cada vez mais isolados em um mundo competitivo e sem calor humano.
Estranhamente o que mais me chamou atenção foi a voz de Ary e a sensação de picaretagem. Em aproximadamente 20 minutos de vídeo, se descobre que Ary na verdade é um personagem inventado, uma persona usada para refletir o papel da imprensa.

Jornalistas, estudiosos sobre o jornalismo, entre outros profissionais midiáticos, aparecem ao longo do filme intercalados em depoimentos e cenas de Ary, vivido na verdade pelo ator e dublador Leonardo Camillo. Taí a tal voz que eu sentia que conhecia. Presente na dublagem do ator Nicolas Cage e em desenhos animados como “Cavaleiros do Zodíaco”.
Mas, a importância de “O Abraço Corporativo”, filme “pegadinha” ou esta linha de documentários como filmes de Michael Moore, “Super Size Me”, são as discussões que eles propõem. O jornalista Ricardo Kauffman é extremamente cuidadoso, tanto que esta edição que chega às telas é a 20ª versão de corte. Ele pensou, repensou em diversas maneiras de contar essa história. E acima de tudo a proposta não é expor os veículos ou jornalistas que “caíram” na história inventada pelo personagem e sim discutir porque nós, jornalistas, na pressa por uma pauta, em cobrir um buraco de página, de minutos, já não sabemos mais o que é notícia.

Futilidades, entretenimento, um discurso previsível, afinal o que é notícia hoje? Um homem que distribui abraços na Av. Paulista ou que diz que abraçar o colega de trabalho é uma boa pauta? Pode até ser, mas a completa falta de informações sobre ele e Cbac, davam sinais que esta pessoa não tinha nenhuma base para afirmar o que dizia.

O método

A idéia de Kauffman surgiu em conversas com outros jornalistas e na reflexão sobre como a notícia é construída e especialmente baseada no agendamento. Assim como hoje, junho de 2010, certamente qualquer pessoa que falar sobre África do Sul, Copa ou futebol, terá algum espaço na mídia.

Em 2006, o vídeo “Free Hugs” virou hit na internet. O australiano Juan Mann aparece distribuindo abraços na rua. Foi o ponto de partida para Kauffman. Ele entrevistou alguns atores, escolheu Camillo e a partir daí criaram Ary Itnem (lido de trás para frente sugere algo interessante), e como qualquer assessoria de imprensa, produziu releases e encaminhou para os veículos. Virou pauta e as pautas eram gravadas para o documentário que poderia ou não dar certo. O diretor não sabia como seria o desfecho. Alguém poderia reconhecer Camillo, eles poderiam ser desmascarados, o importante era a tentativa.

Mas, Kauffman deixou pistas. Um documento em cartório registrado no site da Cbac poderia levar à descoberta da farsa, diversos indicativos apontavam para a falsa personalidade de Ary.

No filme ainda aparece o depoimento de Yuri Firmeza, artista plástico que fez uma “pegadinha” em janeiro de 2006 com a imprensa cearense. Ele criou um famoso artista plástico japonês “Souzousareta Geijutsuka”, que estaria montando uma exposição em Fortaleza. Com um release, a foto de um gatinho e com o discurso que era famoso no Japão, o suposto renomado artista ganhou espaço nos jornais. A proposta era discutir o que é arte afinal? Se fosse Yuri, até então desconhecido, que mandasse a tal foto do gato, seria ele considerado artista? Qual é essa fronteira?

Há quem questione esses métodos, mas será que se Yuri tivesse escrito um texto questionando porque a mídia vangloria nomes famosos enquanto um artista desconhecido não obtém praticamente nenhum espaço, ele teria chamado atenção? Será que se Kauffman tivesse feito um documentário apenas com depoimentos de estudiosos ou de jornalistas refletindo sobre o assunto, alguém iria parar, escutar e refletir? Às vezes só com um tapa na cara a gente consegue acordar.

Estas obras estão aí corajosamente para explicitar nossas entranhas e ver até que ponto contribuímos para a construção de uma sociedade melhor.

Em tempos de crise do jornalismo, quando se discute afinal o que é jornalismo e o que é entretenimento, ou se existe fronteira entre os dois. Jornais tentam se reinventar, chamar mais leitores, veículos precisam de mais espectadores. Índices e números são a base para as empresas de comunicação, afinal tempo é dinheiro e a comunicação é sim um negócio. “O Abraço Corporativo” é um filme necessário para quem está dentro deste liquidificador, mas também para abrir os olhos da sociedade e ver que nem tudo que sai na mídia é verdade.

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