CongressoCult 2: A arte de ouvir

*Matéria publicada no site Jornalirismo em 13/05/2010

Eduardo Coutinho surgiu. Desceu as escadas do Tuca com uma bolsa a tiracolo e um casaco sobre as costas. Já se passava das sete horas da noite de quarta-feira, 5 de maio. O cabelo branco, a barba por fazer, o jeito de homem frágil.

Laís Bodanzky estava no palco, na mesa que discutia a crítica de cinema. Com a mão no rosto, ela ficou observando os passos suaves de Coutinho.

Ele olhava para baixo, ainda não tinha percebido que ela o notava. Quando ele olhou para o palco, a mão direita de Laís fez um breve aceno, acompanhado do sorriso terno de quem admira e reconhece um par.

A palestra sobre o documentário brasileiro começou em seguida. Na previsão, estavam escalados os dois expoentes máximos do cinema documental do país: Eduardo Coutinho e João Moreira Salles. Complicações e atrasos no voo impediram que Salles comparecesse, mas Coutinho chegou e foi recepcionado por um público caloroso, que, até então, não muito se manifestara.

Diretor de filmes como Moscou, Jogo de Cena, Edifício Master e Cabra Marcado para Morrer, Coutinho, com voz rouca e fala mansa, conversou por mais de duas horas com a plateia, formada basicamente de estudantes e jovens jornalistas. O crítico de cinema Sérgio Rizzo fez a mediação.

“O que me interessa é aquilo que não sou eu, aquilo que eu não sei”

Coutinho acredita que o documentário é o momento sublime ocorrido durante a gravação. O encontro entre ele e o entrevistado, o qual chama de personagem. Para não haver interrupções nas trocas dos rolos, optou há muitos anos por gravar de forma contínua, pelo sistema em vídeo. Antes, era betacam, hoje, digital.

Para ele, as pessoas anônimas com as quais conversa são interessantes, pois estão abertas a falar e, especialmente, são diferentes dele, refletem outra realidade.

Uma técnica é a pesquisa. Geralmente, produtores levantam possíveis personagens, que são gravados, e os relatórios, entregues a Coutinho. Como a pessoa ainda não teve um contato prévio com o diretor, conta a história como se fosse a primeira vez que a relata para alguém. “Às vezes, essa história que já foi contada é contada novamente, de forma muito mais lírica. Não porque tem uma câmera, mas porque tem uma pessoa que a escuta como ninguém escuta”. Ouvir é o seu segredo.

“O imperfeito é que é belo, não o perfeito”

Ao término da palestra, Coutinho foi cercado por vários jovens e cordialmente conversou, tirou fotos, autografou cartazes do congresso com a foto de Clarice Lispector. Eu também não resisti e confessei o quanto ele significa para mim, de como mudou minha vida com seus filmes e seus personagens, entre a fronteira do real e da ficção.

Coutinho deixou um recado para a organização. O cineasta disse que, ao longo de sua vida, já participou de vários congressos, palestras, mas nunca viu um público como o do II Congresso de Jornalismo Cultural: “Essa juventude é sábia!”.