Nem cinto, nem suspensório, diga sempre a verdade!


Resenha sobre o filme A Montanha dos Sete Abutres. Realizada para a matéria Redação Jornalística 6, ministrada pelo jornalista Sandro Galarça (2007).

O título desta resenha parece meio sem propósito assim, mas ele tem um significado todo especial no filme “A Montanha dos Sete Abutres”. Dirigido em 1951 por Billy Wilder, que entre tantos filmes fez “Crepúsculo dos Deuses” e “Quanto mais Quente Melhor”, a película faz uma crítica à essência do jornalismo e explora algumas perguntas importantes como: o que é a verdade? O que é notícia? Qual é o limite do repórter? O que as pessoas procuram com a notícia? Qual a função da imprensa?

Diga a verdade! A frase bordada pela doce senhora da editoria de “coisas para mulheres” está na entrada do escritório do Sr. Boot, dono do pequeno jornal de Albuquerque. Entre tantas coisas ele usa suspensório e cinto, exatamente! Os dois, ao mesmo tempo. Checa duas vezes as informações antes de publicar e sempre fala a verdade.

Um dia aparece em seu jornal, Charles Tatum, um jornalista nova-iorquino, homem astuto e de caráter duvidoso. Foi demitido de onze jornais, por várias razões, entre calúnias, envolvimento com a mulher do editor e problemas com bebida. Tatum, interpretado por Kirk Douglas, não freqüentou a academia, mas vendeu jornais na esquina, e por isso tinha uma teoria do que era notícia e quais notícias interessavam ao público.

O pior de tudo é ver que a crítica à ética jornalística, presente em A Montanha dos Sete Abutres, é totalmente pertinente e atual. Existem milhares de Charles Tatuns, a pleitear um espaço, querendo ganhar mais e mais notoriedade sem se importar com as pessoas ou com as histórias que contam. E existem milhares de pessoas como Leo Minosa, o personagem preso em uma caverna, que em sua ignorância e ingenuidade acredita que será salvo pelo amigo mentiroso, o jornalista Tatum.

A ética é algo tão banalizado que ser ético é sinônimo de trouxa. Infelizmente isso era tão real em 51 como é em 2007. Ser ingênuo é ser burro. Não importa a classe social que se faça parte, o mundo do passe para trás está em tudo e especialmente na imprensa. Os meios de comunicação são fundamentais na manipulação, na bajulação desordenada e a ética figura como um detalhe, muitas vezes esquecida em uma gaveta, como uma pauta para mais tarde.

Vale a pena passar por cima de tudo e de todos para ter uma boa notícia, um ótimo salário, ser agraciado pelos leitores, espectadores, ouvintes? Ser jornalista é sinônimo de artista por acaso? Quais informações úteis realmente passamos à frente? Me pergunto isto todo dia. O que quero com o jornalismo? Que tipo de coisa construo a partir de minhas impressões?

Tatum pagou seu “pecado”, numa frase bem católica. Se não fosse por sua vaidade, a probabilidade de que Leo Minosa saísse muito tempo antes da caverna seria múltipla. Se não fosse por sua arrogância, ele mesmo não teria morrido.

A placa: “Fale a verdade” é tão ousada quanto ditadora. Um pouco mais de sinceridade não faz mal nenhum. Por mais piegas que seja, voltamos sempre aos ensinamentos básicos: onde começa o direito de um, acaba o do outro, talvez isso seja a essência da ética. Talvez as redações precisem mais de cintos e suspensórios, assim como placas de Diga a Verdade! Mas de que adiantam placas se os olhos não querem ver?