
Texto: Simone Castro. Matéria realizada em junho de 2007 para a disciplina de Jornalismo de Revista, ministrada pelo professor Mario Luiz Fernandes.
Seja em uma grande cidade, em uma cidade pequena, aqui no Brasil, ou em qualquer outro lugar do mundo. Sempre há alguém ali, visível no invisível. O estereótipo pode ou não ser verdadeiro, roupas rasgadas, um pouco sujas, o mau cheiro, pessoas sentadas no chão com uma caixinha, vendendo alguma coisa nos sinais, fazendo malabarismos ou simplesmente pedindo esmolas.
Há quem repudie, há quem procure entender e contribuir. Há quem procure instituições ou abrigos para ajudar, há quem simplesmente finja que não vê. As reações são as mais diversas. E inevitavelmente, pelo menos uma vez na vida você se pergunta, mas eu devo ou não dar esmolas? Devo dar um alimento ao invés de dinheiro? E se der dinheiro o que eles vão fazer com ele, usar drogas?
Itajaí, cidade portuária com aproximadamente 170 mil pessoas de todos os cantos do país. O maior porto de Santa Catarina vira um atrativo econômico e faz com que migrantes busquem melhores condições de vida. Além disso, a cidade está ao lado de Balneário Camboriu, que recebe milhares de turistas todos os verões. Parece meio desconexo este amontoado de informações, mas logo você vai entender. A matéria fala de esmolas, mas para falar de esmolas temos que apurar a causa destas pessoas estarem nas ruas.
Perda de emprego, separação conjugal, uso de álcool e drogas, além de abandono familiar, são apontados pelo coordenador do Programa de Orientação ao Migrante, Marcos Paulo da Silva como os principais motivos que levam uma pessoa a preferir morar nas ruas. Ele afirma que o período com maior número de mendigos pela cidade é de dezembro até o fim do Carnaval. Ou seja, em busca de melhores oportunidades, mas com baixa escolaridade, além de muitos já serem dependentes químicos, estas pessoas acabam nas ruas, pedindo esmolas.
Há quem more nas ruas mas que não se considera um morador de rua. Moacir Luiz da Costa, um senhor magro, de aproximadamente 1,68m de altura, escorpiano de 62 anos fica confuso quando é perguntado sobre sua idade. Diz que nasceu em 1944, faz algumas contas rápidas e diz que possui 64 anos. Assim como a idade não confere, muitas informações de Seu Moacir não batem. Ele diz que saiu de casa há 26 anos, mas não é morador de rua, é trecheiro. Saiu de Brusque, sua cidade natal com o objetivo ir a pé até a Basílica de Aparecida, em São Paulo e de lá foi até a Bahia e assim segue. Ele diz que fica na casa de seus irmãos, espalhados pelo Brasil. E quando pergunto quantos irmãos ele tem, ele me responde que com ele são quatro, duas irmãs aqui em Itajaí.
A impressão que tive, foi que seu Moacir não queria que eu tivesse a sensação que ele não era confiável, que era um qualquer. Ele queria mostrar toda sua dignidade. Falou espanhol, disse que escrevia poesia e entendia um pouco de jornalismo, que já deu algumas entrevistas. Aparentemente, aquele senhor, não tinha problemas mentais, mas as idéias eram confusas.
Seu Moacir é solteiro, disse que era peão de fazenda e que limpa os terrenos das pessoas até hoje. Quanto a pedir esmolas, diz que não pede, geralmente senta em algum lugar e as pessoas oferecem, mas há cidades maiores que ele pede um prato de comida, vai a alguma padaria. E são algumas bolachas, provavelmente a única alimentação que ele tinha, que ele me oferece. Eu não aceitei, talvez um pouco por receio da higiene, mas principalmente por saber que aquelas bolachas lhe fariam falta no fim do dia. Acho que minha atitude foi ríspida, deveria ter aceitado, como sinal de gratidão. E gratidão foi algo que senti naquele senhor, sentado ao sol, numa calçada ao lado da floricultura, de chinelinho em um dia frio. As pessoas passavam e me observam conversando com aquele senhor. O que eu estava fazendo ali. A sociedade finge não ver estas pessoas. Elas incomodam, parecem mostrar o feio e ninguém gosta disto.
Para o professor de Ciências Sociais, Sérgio Saturnino Januário, o ato de dar esmolas tem a função de eximir a culpa. Ele acredita que o hábito herdado da Idade Média, onde alimentos eram doados para a Igreja acabou gerando este sentimento nos católicos que perdura até hoje. Ainda é comum vermos pessoas pedindo esmolas nos arredores das igrejas. Para o sociólogo, a esmola não representa a solidariedade, “o sentir a dor do outro”, mas ela representa uma relação de poder, onde eu estou dando algo para alguém porque estou me livrando da culpa, faço aquilo não porque vejo alguém passando fome, mas para não me sentir culpado de não ter feito nada.
Já o Padre José Edemar Rauber, responsável pela Paróquia Dom Bosco, garante que a igreja sempre foi contra a dadição das coisas, o dar por dar. Especialmente no período da quaresma, os católicos seguem três passos: oração, esmola e jejum, mas esta esmola não deve ser individual. Ele acredita que a melhor forma de ajudar o próximo é doar para instituições organizadas, que poderão garantir e averiguar o melhor destino, assim como acompanhar a doação. Para padre José o dadismo estimula a miséria e o assistencialismo do governo só mantém as pessoas em situações de dependência. Em sua opinião, deveriam existir mais políticas públicas que garantam qualidade de vida e o estímulo ao ensinar a pescar, não apenas dar o peixe. Ele também é contra pessoas que realizam doações e espalham aos quatro ventos para mostrar o quanto são boas. “Que a mão direita dê, mas a esquerda não fique sabendo”, finaliza Padre José.
Integradas à Igreja Dom Bosco, há duas instituições que realizam o trabalho de “ensinar a pescar”. Uma é o Parque Dom Bosco, mantido através de doações, vinculado à rede salesiana e que atende mais de 900 alunos. Outro projeto é o Centro Comunitário Dom Bosco, este sim, diretamente vinculado a Paróquia e que atua de forma mais abrangente nas vidas das famílias atendidas. São distribuídos para aproximadamente 70 famílias cadastradas, cestas básicas, alimentos, roupas e também são oferecidos cursos profissionalizantes gratuitos para quem se interessar. O diferencial é a proposta de cursos itinerantes que vão até as comunidades. Auxiliar de confeitaria, manicura, pedicura, artes aplicadas, teatro, alfabetização digital, são algumas das modalidades oferecidas. O presídio também é atendido por estes cursos, que mantém em seu quadro professores voluntários e efetivos. Grandes empresas como a Petrobrás atuam como patrocinadores.
Segundo a doutrina espírita ajudar também é extremamente importante para conseguirmos elevação da alma. Para a presidente do Centro Espírita Anjo da Guarda, Maria Salete da Silva, todos somos irmãos e devemos nos preocupar com o próximo como a nós mesmos. Ela critica o pensamento que família são apenas as pessoas com quem mantemos consangüinidade.
Maria Salete afirma que a caridade é a promoção da cultura humana e do ser humano, já a esmola fere a dignidade, pois trata o outro como um ser medíocre, não resgata esperança. Ela cita o Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, fundador da doutrina espírita, que no capítulo Final das Leis Morais aproxima o espiritismo da sociologia e prega que o social e o espiritual não são coisas separadas, mas que se complementam.
A presidente do segundo centro espírita mais antigo de Santa Catarina diz que há corrupção por todos os lados, há uma cultura exagerada do materialismo, então quem está na marginalidade muitas vezes não está por opção, mas por circunstância. “São pessoas que por um motivo ao outro estão na rua, mas nem por isso são melhores ou piores que nós”.
Como padre José, ela afirma que a melhor forma de ajudar é contribuir com instituições sérias. O Anjo da Guarda tem uma parceria com o Lar Fabiano de Cristo, onde há distribuição de roupas, alimentos, além de capacitação profissional e cursos de música.
Segundo Marcos Paulo da Silva, coordenador do Programa de Orientação ao Migrante (POM) e da Casa de Apoio Social, as abordagens realizadas com os moradores de rua em Itajaí são as seguintes: a equipe do POM aborda a pessoa, com diálogo, não há imposição ou violência. Os funcionários verificam o local de origem desta pessoa e se ela é de outro estado. Então ela é encaminhada para a Casa de Apoio Social, onde pode se alimentar, tomar banho, enquanto é feito o contato com a família ou com a assistência social da cidade de origem. Depois esta pessoa ganha uma passagem de ônibus, que é entregue para uma funcionária do posto do POM na rodoviária e ela certifica o embarque do migrante.
Quando o pedinte é da região, ele é encaminhado para a Casa de Apoio Social e uma assistente social determina o tempo que ele ficará no local. Alguns critérios são avaliados, como se ele é ou não dependente químico, formas de tratamento em clínicas, internações. Após este período ele recebe encaminhamento para cursos profissionalizantes. Atualmente oito pessoas estão abrigadas na Casa. O abrigo com capacidade para atender 25 pessoas está localizado no bairro Rio do Meio. Como é uma região agrícola, os moradores de rua plantam, lavam suas roupas, criam coelhos, galinhas, porcos. Para Silva, o importante é que haja ambiente familiar e que sejam respeitadas algumas regras e limites.
A prefeitura de Itajaí está lançando uma campanha contra a doação de dinheiro para pedintes, artistas que se apresentam nos semáforos e flanelinhas. A campanha “Quem dá esmola não dá futuro” pretende conscientizar a sociedade que doar esmola não contribui de uma forma eficaz para a desmarginalização destas pessoas. Silva diz que ao ver uma pessoa pedindo, o ideal é entrar em contato com o POM, para que eles averiguem a situação.
Outra preocupação é com as crianças de rua. Muitas são exploradas pelos pais ou parentes que as obrigam a pedir esmolas. Outras, vítimas de violência doméstica ou sexual, preferem as ruas. Leni Batista Tessele, conselheira tutelar, garante que ao sermos abordados por uma criança não devemos dar a esmola e sim chamar o conselho, que trabalha todos os dias da semana e tem plantão 24h. Estas crianças passam por uma triagem onde são localizadas suas famílias, são levantados os motivos delas estarem nas ruas, é verificado se as famílias recebem apoio social, como Bolsa Família ou estão inseridas em projetos como o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI). A tentativa principal é inserir esta criança de volta à sua família, seja aos cuidados dos pais, tios ou avós. Caso não seja possível, ela é encaminhada para um dos quatro abrigos. Três são destinados a crianças até 12 anos e um para adolescentes até 18 anos. Atualmente as 62 vagas estão lotadas.
Para a advogada, Grace Azambuja, ver crianças nas ruas sempre lhe cortou o coração. Ela então, no intervalo do trabalho, começou a pagar lanches para estas crianças enquanto conversava, dava respeito e afeto, mas não as levava para casa, chamava o Conselho Tutelar. Hoje já não faz mais este trabalho, mas desenvolve uma atividade no Parque Dom Bosco com menores em conflito com a Lei. Grace reconhece a dificuldade em plantar esperança nestes adolescentes, mas acredita que pode ajudar.
Já a conselheira tutelar Leni diz que marginalidade está muito próxima destas crianças e que as políticas públicas não são eficientes no tratamento familiar, pois não há um acompanhamento efetivo destas famílias. O conselho sendo um órgão encaminhador, só orienta, não tem como tratar todos os casos de perto.E assim, vamos vivendo, fingindo que tudo está bem e que nada temos a ver com isso.
Serviço
Centro Comunitário Dom Bosco – (47) 3344-1630
Programa de Orientação ao Migrante – (47) 3249-5874
Programa de Orientação ao Migrante – Sala Rodoviária – (47) 3248-4598
Programa de Orientação ao Migrante – Plantão das 7h as 00h – (47) 9919-8961
Programa de Orientação ao Migrante – Casa de Apoio Social – (47) 3346-5188
Assistência Social – Bolsa Família – (47) 3249-5801 / 3249-5879
Conselho Tutelar – (47) 3248-1711 / 3349-8456 – Plantão 24h – 9963-1684
Serviço de Denúncia Exploração Sexual Crianças e Adolescentes – 0800-99-0500